Discografia

Espacial

2007 MCD
Produzido por Plínio Gomes, Marcos Cunha, Sacha Amback, Marcos Suzano e BiD
Co-Produzido por Katia B

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por Adriana Calcanhotto

Katia B é uma artista de quem gosto de acompanhar a trajetória, por muitos motivos. Porque é talentosa, claro, mas também porque tem humor todo próprio e porque é, sobretudo, permeável e transparente. Com isso quero dizer que Katia B, ao contrário de muita gente, não disfarça as influências que sofre, muito pelo contrário, deixa-as à mostra, sem véus. Das influências mais fisicamente presentes, como a dos autores, parceiros, músicos e produtores com quem trabalha e a quem incorpora, àquelas um pouco mais distantes, como as vozes das cantoras que ouviu (e que lhe impulsionaram a se entregar à música), passando pelo canto contemporâneo de Bebel Gilberto; todas aparecem sempre como diálogo e não como sombra. Ela se permite ser influenciada, não tem medo de se metamorfosear, e sempre foi assim.

As escolhas que fez para este 'Espacial' - a começar pelo nome, ótimo para um disco - são todas assim, bem nítidas, e assim ela se expõe ao invés de se resguardar ou proteger, o que já a instala num lugar privilegiado, a meu ver, em relação à instauração de seu universo para o ouvinte. E, "uma mutação que se inicia", é o que essas escolhas parecem querer dizer em relação a esse momento específico da sua trajetória.

A sua turma de colaboradores é especialíssima, e ela se mistura com eles de um jeito pessoal e orgânico, o que talvez seja um dos segredos do calor do disco; afinal essas não são pessoas encontradas em quaisquer projetos; são, na verdade, quase todos autores, de uma ou de outra maneira, e é exatamente isso o que Katia B procura e encontra; a cumplicidade e o input de criadores de quem é francamente admiradora. Por isso tudo, pela qualidade de adesão de pessoas tão talentosas, Espacial é cheio de delicadezas e de momentos de espontaneidade, incorporados e registrados, para nosso deleite.

A intensidade com que interpreta a impressionante "Destiny (be my friend)" é comovente, nas duas vezes em que aparece no CD; uma com produção do criativo Marcos Cunha, a outra (onde o uivo cool de Vitor Ramil arrepia) com produção dela própria. E todo esse entorno, de grande qualidade musical, técnica, e altíssima voltagem afetiva, apóia um canto fino e articulado, de fraseado denso e relaxado em emissão aerada, uma verdadeira delícia.

Assim - mutável, andante, mas acima de tudo transparente - quando ela diz "mas eu sigo indo" (noutra pérola do mesmo Ramil, "Viajei") ou (quando em "Mundo grande" em parceria com Suely Mesquita) diz "quero ver o que eu encontro depois que passar do ponto que daqui dá pra enxergar", é isso mesmo o que está querendo dizer.

Não percam.

Adriana Calcanhotto